A gente contava a nossa história desde 1932. Semana passada descobrimos que ela começa quase 60 anos antes disso.

Toda empresa centenária tem uma versão oficial da própria origem. A nossa também tinha — até irmos atrás dos documentos.


A história que a família sempre contou

Há gerações, a história da Berta é contada assim: em 1932, seu Willy Weissenbruch chega a São Paulo vindo de Porto Alegre e monta uma empresa dedicada à venda de fogões a lenha, carvão, querosene e óleo diesel. Em 1937, o negócio vira a Casa Berta Distribuidora de Fogões Ltda. O pai de Silvio (atual dono da Berta), seu Silvino, entra na empresa naquele mesmo ano.

Essa é a versão que atravessou décadas dentro da família — e é a versão que a gente sempre repetiu quando alguém perguntava de onde vinha o nome Berta.

“Só que essa não é bem a origem. É o meio da historia”


O que a gente foi descobrir

Nas últimas semanas, começamos a vasculhar acervos de jornais e revistas antigas atrás de qualquer registro da Berta antes de 1932. E encontramos muito mais do que esperávamos: anúncios publicados em 1924, 1927 e 1931 — todos anteriores à data que a família sempre usou como marco zero.

Voltando ainda mais no tempo, os registros apontam para uma fundação em 1873, em Porto Alegre, por um imigrante chamado Emmerich Berta (Avô de Rubem Berta – um dos antigos presidentes da Varig – 1941). Em 1906, a empresa passa a ser de Alberto Bins. E já em 1913 aparece documentada uma sociedade entre “Berta” e “Wallig”.

O Willy, que a família sempre entendeu como fundador, aparece pela primeira vez nos registros em 1924 — descobrimos que ele não foi o fundador, mas esteve à frente do Depósito Berta, na Praça do Correio, 14, em São Paulo. Dois anos depois, em 1926, ele já está registrado como fabricante de fogões, no mesmo endereço.

A linha do tempo, reconstruída

O que isso muda

Não é só uma data diferente. É um personagem diferente. Willy deixa de ser o fundador de uma empresa nova em 1932 e passa a ser a pessoa que, a partir de 1924, tocou a operação paulista de uma marca gaúcha que já tinha meio século de existência. A Berta não nasceu em São Paulo — chegou lá.

E o endereço muda a história dos dois lados: enquanto a memória da família fala em Rua Capitão Salomão e depois Rua Brigadeiro Tobias, todos os documentos que encontramos até 1942 apontam para a Praça do Correio — nos números 14, depois 30, depois 36. As duas coisas podem ser verdadeiras em momentos diferentes; só ainda não sabemos exatamente quando uma vira a outra.

Uma marca com quase 150 anos não tem uma história fechada

A gente podia ter simplesmente trocado “1932” por “1873” e seguido em frente como se sempre tivéssemos sabido disso. Mas achamos que a história mais honesta — e mais interessante — é essa: quase um século depois de Emmerich Berta abrir as portas em Porto Alegre, ainda estamos encontrando pedaços da própria origem.

Isso não enfraquece a marca. Fortalece. Significa que por trás de cada fogão, chapa e fritadeira que sai daqui hoje existe uma linhagem de gente construindo cozinhas profissionais desde o século XIX — e uma família que continua curiosa o suficiente para ir atrás da própria verdade.